16/11/2008

LITERATURA - Saga Lusa. Relato de uma viagem

Primeira publicação em prosa de Adriana Calcanhoto
http://www.adrianacalcanhotto.com.br/mare

Urso Panda em Saga Lusa

“Todos anjos são terríveis” (Rilke)

Confesso que esperava mais da sua primeira prosa publicada. Talvez por estar viciada numa literatura muito margueriteana, lispectoreana, hilsteana e por saber, a priori, que era o registro de um surto. Só pode ser bomba, pensei. Vai me destruir. Nada disso, mas me tocou. Pela leveza e por estar ela ali, Adriana Calcanhoto, íntegra, despida, doce. Li numa sentada, como se o sorvete derretesse nos dedos impondo a necessidade de chupá-lo rápido até a pele das mãos, já lambuzadas. Fomos convidados, pelo seu “relato de uma viagem”, a percorrer a turnê de Maré, seu último disco, em Portugal e, além, dividir o mesmo quarto com ela. Um presente por deixar-nos passear pelas terras lusas e conhecê-la na intimidade. .

“Poderia ter enlouquecido em qualquer outro ponto da turnê, mas justamente em Portugal? O país que tem como seu dia, o “Dia Um” como eles gostam de chamar, o dia de um poeta? O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, sim, mas é o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas no mundo todo, não é lindo isso? Dez de junho. E somente porque não sabe-se ao certo a data de nascimento de Camões, então ficou-se com a da morte. É fascinante, comovente. O dia de Portugal não é o dia de um general, de um estrategista, de um descobridor, de um desbravador, de um rei, um golpista, um conquistador, um ditador autoritário, um lunático, nem mesmo de um metalúrgico. É o dia de um poeta. Que outro país é assim? É muito linda uma nação camonóloga.”
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Sua escrita é simples, como ela mesma é. Mas mora nela, na simplicidade, e portanto em Adriana, a beleza. Nada sobra nela. Nunca desperdiça palavra, é quase enigmática, mas quando fala, bum. Pouco performática, quase seca. Pouco movimenta o corpo no palco (isso é uma provocação, Adriana!). É voz. É verbo. Quando canta, quando fala, quando escreve. Aos poucos, ao longo de uma vida, se constrói como palavra, apenas, para o mundo (apenas?).

Das canções, percorrendo seus discos, é possível decifrá-la poeta e política. Expressa as mazelas do mundo: "insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como cachorros dentro dágua no escuro do cinema"; Encerra delicadeza quando se faz Partimpim para interpretar Chico, Edu, Arnaldo Antunes e nos encolhe crianças, com pereba, marca de bexiga, lombriga, ameba, berruga, piolho, unha encardida, dente com comida, casca de ferida, calcinha um pouco velha; Constrói metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros, em parcerias com Waly Salomão e Antonio Cícero: "Passe pela lapa, pelos arco-íris dos seus arcos mais explícitos pelo claro-escuro, pelo som impuro, obscuros becos, claros dígitos"; Fala de amor de um jeito que cabe em qualquer amor: "Entre por essa porta agora e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida"; mas é despretenciosa: "Minha música quer estar além do gosto não quer ter rosto, não quer ser cultura minha música quer ser de categoria nenhuma minha música quer só ser música".

Ela entra em Maré como um molusco vermelho colorindo o mar. Vejo-a sentar-se na cadeira como uma Iemanjá imponente, tendo-nos todos, seres marítimos menos importantes na cadeia das espécies, hipnotizados. A voz, agora, só cabe à deusa. Canta Esquadros e eu navego nessas águas ("meu amor, cadê você, eu acordei, não tem ninguém ao lado")

Adriana está, no show, com violões e cello, Bruno Medina nos teclados, Domenico Lancellotti e Marcelo Costa na percursão e Alberto Continentino na guitarra. O arranjo é harmonioso e ousado. Ao final, ela canta Guilherme Arantes. Uma música da minha infância. Vim a saber, no livro, o sentido dela, ali. Canta o mistério da lucidez na madrugada. “Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto à meia-noite, á meia-luz, sonhando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Se despede como um urso panda em um azul aveludado. Se transforma num mar revolto em cinza. "Não, não temos certeza se estaremos de volta às três, nem se haverá baleias e nem mesmo se voltaremos, se é que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos certeza de nada".

Mas e o surto, Adriana? Você não nos diz o sentido do surto, o sentido de tudo... "Não vou dizer que não mereço, não sei dizer ao certo por que é que tive que passar por todo esse calvário dos últimos dias, nem quero muito investigar, acho melhor. Desculpe..." Não se faz necessário, Adrix, nem investigar, nem desculpar-se. O sentido foi dado e é óbvio: Revela-se uma escritora:

“Bong é uma gata que caiu de pára-quedas na minha vida, foi abandonada na rua e veio parar na minha mão, por acaso, destino, fado. Em seguida me apaixonei, louca, perdidamente por ela, que é uma graça. Caí de amores por Bong depois de ter ficado completamente arrasada com a morte de Lig Lig Lé. Acontece que Ming Ling Lé, a gata mais velha, não se conforma, não aceita a presença de Bong e, com isso, está deprimida, estressada, não come. Então, exatamente enquanto escrevo estas frases, Isabel está passando lá em casa para levar Bong embora, adotá-la e ficar com ela. Pra sempre, ô meu deus, como dói.”
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Cada escritor que nasce, salva um afogado!
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21/09/2008

TEATRO - Fala comigo como a chuva

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(Texto do dramaturgo americano Tennessee Williams, com Cynthia Paulino na direção e, junto com ela, Paolo Mandatti na Direção de Arte, Cenário e Figurino. No elenco, Samira Ávila e Luiz Arthur.)
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O silêncio é convocado. É possível percebê-lo logo, pois se apresenta ao público ainda na entrada, ao dispô-lo de forma intimista, colado ao estrado, em um tipo de arquibancada tendente a manter os corpos que assistem no mesmo nível de tensão daqueles que atuam. Ele está instaurado, ainda, no cenário cru, quase hospitalar, que destaca apenas Klimt, ao fundo, em prolongamento dos corpos compostos por tecidos só manifestos no ato do despir-se existencial dos personagens. Deixa sua marca, finalmente, na representação dos atores-instrumentos – é possível transcendê-los e ir se abrigar no não-lugar ao qual a obra nos convoca, o não-lugar poético-literário e, sobretudo filosófico, necessário ao arrebatamento.

A circularidade disposta na encenação contrapõe o que ainda ontem, antes de seguir ao Galpão Cine Horto, eu lia no texto O teatro, em A vida Material, de Marguerite Duras, para quem a interpretação diminui o texto, nada lhe dá, é o seu oposto, lhe tira presença. Em Fala comigo como a chuva o texto está materializado em cada cena e a sua interpretação, longe de roubar-lhe o ato, lhe imprime, lhe desvenda, lhe dá vida.

Algo no texto me remete à filosofia de Wittgenstein e à literatura de Lispector. A personagem de Tenesse Williams, convocada ao diálogo, traduz, ao longo do espetáculo, o lugar da Palavra. Ao descartar a elaboração metódica de uma linguagem que em tese traduziria seus sentimentos e evocar qualquer frase aberta de um livro ao acaso, dando-lhe a interpretação necessária à transposição da dor, impõe, à palavra, o lugar de caminho, percurso, instrumento, apenas, para deixar vazar, escapulir, dispor, o que não está apenas no dizer, mas na integralidade do instante do dito.

Se o texto traz esta dimensão, a construção da sua representação contribui para este entendimento. A repetição bem empregada reflete, como mantra, o que há de sensação para além da palavra. Esta repetição, como tautologia, se fixa no ambiente e sugere o calar onde não cabe falar. A dança dos corpos, a dizer como a chuva, existir uma linguagem para além do signo-letra, batiza com água a verdade dos personagens, fazendo-nos transparentes diante desta busca humana por um outro que nunca chega.

Esta procura frustrada, desmascarada pelo personagem feminino naquilo que seria fácil caracterizar como surto, delírio, loucura, transporta-nos para o insuficiente, incomensurável, inarmonioso, inextirpável, inarrável, inassíduo, inane, da dimensão humana.

A madrugada se estende em desatino, como espelho capaz de fazer ver o quanto há de solidão nesta dimensão, impossível de ser decomposta pela presença de um outro. Este vazio é limitado à incapacidade deste outro, ao lado, supri-la ou é maior, do tamanho do existir? Há casa de praia repleta de poetas mortos capaz de preencher o quanto há de vazio-e-busca no ato de ser?

A música, ali, ocupa com maestria o seu lugar de tradutor do tempo. Ela é o tempo, que ora nos arrasta à complexidade das relações instauradas no que já se construiu e destruiu, insinuando uma necessária ruptura em prol de uma vida que se quer alheia à dor e ora nos arranha na impressão de um instante que, apesar da dor, ainda nos suga e conforta, porque repleto e molhado de amor.

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