
foto colhida em: www.espanca.com


É difícil permanecer em O Renascimento. Não fossem os primeiros minutos, e os últimos, poder-se-ia reduzi-lo friamente a uma repetição entediante das mesmas sequências, o que levou, na seção da mostra que participei, metade do público a deixar a sala do cinema antes que os créditos finais aparecessem na tela.
Junichi, que já havia perdido a mulher para o câncer, tem bom trabalho em jornal e vive em bairro de classe média alta em Tóquio, tem a única filha assassinada pela filha de Noriko, que é colega daquela na escola e vive em periferia. A mãe da menina assassina e o pai da menina assassinada, numa coincidência que só virão a saber mais tarde, mudarão para a mesma cidade buscando, numa rotina de trabalho mecânico, ele como metalúrgico e ela como cozinheira, não refletir a desgraça que os acometeu. Somos situados neste enredo em poucas sequências e logo inseridos na nova rotina dos personagens.
Em três quartos do filme nossos olhos são colocados diante de cenas circulares. Junichi trabalha durante o dia e à noite, ao chegar no albergue onde mora, toma banho e vai jantar na cozinha coletiva onde Noriko prepara as refeições. Presenciamos Junichi, em suas ceias, durante o filme, comer cru uns trinta ovos. Todos de uma vez, não. As sequências dos dias de trabalho e das noites de jantar se repetem devagar, fazendo-nos sentir, por tantas vezes quanto o personagem come, o ovo tomar nossa boca, percorrer a língua em busca do paladar e descer escorregadio, invadindo, gosmento, o nosso corpo. Engolimos, cúmplices, a sua rotina, sentados do outro lado da mesa, ouvindo a trituração da comida que ainda resta.
Noriko sai do Albergue repetidamente para comprar alimento industrializado – sanduíche gelado e suco de caixinha. Nunca sabemos se é dia ou noite porque o céu está sempre num tom de cinza morto. A mesma loja, a mesma rua, a mesma máquina de refrigerante com a marca da Coca-cola, em vermelho, em contraste ao cenário nublado. Ela arrasta o corpo, pela rua, torto, encolhido, inclinado, moribundo. Poucas vezes temos os olhos de Noriko, sempre escondidos pela cabeça e cabelos pendidos. De volta ao albergue, come sem gosto, noite após noite, dorme sem gosto e nas madrugadas tem o corpo desperto, tomado por insônia..
Apesar de vermos suas estórias transcorrerem nos mesmos ambientes, eles só se cruzam quando já nós nos perdemos. Quando encontramo-nos quase sós na sala de cinema (muitos preferiram não [se] ver - olho para trás e quase peço ao casal para permanecer comigo até o fim), desmascarados em nossa própria espiral de trabalho e mastigação, eles se vêm de frente um para o outro.
Urso Panda em Saga Lusa
“Todos anjos são terríveis” (Rilke)
Confesso que esperava mais da sua primeira prosa publicada. Talvez por estar viciada numa literatura muito margueriteana, lispectoreana, hilsteana e por saber, a priori, que era o registro de um surto. Só pode ser bomba, pensei. Vai me destruir. Nada disso, mas me tocou. Pela leveza e por estar ela ali, Adriana Calcanhoto, íntegra, despida, doce. Li numa sentada, como se o sorvete derretesse nos dedos impondo a necessidade de chupá-lo rápido até a pele das mãos, já lambuzadas. Fomos convidados, pelo seu “relato de uma viagem”, a percorrer a turnê de Maré, seu último disco, em Portugal e, além, dividir o mesmo quarto com ela. Um presente por deixar-nos passear pelas terras lusas e conhecê-la na intimidade. .
“Poderia ter enlouquecido em qualquer outro ponto da turnê, mas justamente em Portugal? O país que tem como seu dia, o “Dia Um” como eles gostam de chamar, o dia de um poeta? O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, sim, mas é o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas no mundo todo, não é lindo isso? Dez de junho. E somente porque não sabe-se ao certo a data de nascimento de Camões, então ficou-se com a da morte. É fascinante, comovente. O dia de Portugal não é o dia de um general, de um estrategista, de um descobridor, de um desbravador, de um rei, um golpista, um conquistador, um ditador autoritário, um lunático, nem mesmo de um metalúrgico. É o dia de um poeta. Que outro país é assim? É muito linda uma nação camonóloga.”
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Sua escrita é simples, como ela mesma é. Mas mora nela, na simplicidade, e portanto em Adriana, a beleza. Nada sobra nela. Nunca desperdiça palavra, é quase enigmática, mas quando fala, bum. Pouco performática, quase seca. Pouco movimenta o corpo no palco (isso é uma provocação, Adriana!). É voz. É verbo. Quando canta, quando fala, quando escreve. Aos poucos, ao longo de uma vida, se constrói como palavra, apenas, para o mundo (apenas?).
Das canções, percorrendo seus discos, é possível decifrá-la poeta e política. Expressa as mazelas do mundo: "insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como cachorros dentro dágua no escuro do cinema"; Encerra delicadeza quando se faz Partimpim para interpretar Chico, Edu, Arnaldo Antunes e nos encolhe crianças, com pereba, marca de bexiga, lombriga, ameba, berruga, piolho, unha encardida, dente com comida, casca de ferida, calcinha um pouco velha; Constrói metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros, em parcerias com Waly Salomão e Antonio Cícero: "Passe pela lapa, pelos arco-íris dos seus arcos mais explícitos pelo claro-escuro, pelo som impuro, obscuros becos, claros dígitos"; Fala de amor de um jeito que cabe em qualquer amor: "Entre por essa porta agora e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida"; mas é despretenciosa: "Minha música quer estar além do gosto não quer ter rosto, não quer ser cultura minha música quer ser de categoria nenhuma minha música quer só ser música".
Ela entra em Maré como um molusco vermelho colorindo o mar. Vejo-a sentar-se na cadeira como uma Iemanjá imponente, tendo-nos todos, seres marítimos menos importantes na cadeia das espécies, hipnotizados. A voz, agora, só cabe à deusa. Canta Esquadros e eu navego nessas águas ("meu amor, cadê você, eu acordei, não tem ninguém ao lado")
Adriana está, no show, com violões e cello, Bruno Medina nos teclados, Domenico Lancellotti e Marcelo Costa na percursão e Alberto Continentino na guitarra. O arranjo é harmonioso e ousado. Ao final, ela canta Guilherme Arantes. Uma música da minha infância. Vim a saber, no livro, o sentido dela, ali. Canta o mistério da lucidez na madrugada. “Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto à meia-noite, á meia-luz, sonhando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Se despede como um urso panda em um azul aveludado. Se transforma num mar revolto em cinza. "Não, não temos certeza se estaremos de volta às três, nem se haverá baleias e nem mesmo se voltaremos, se é que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos certeza de nada".
Mas e o surto, Adriana? Você não nos diz o sentido do surto, o sentido de tudo... "Não vou dizer que não mereço, não sei dizer ao certo por que é que tive que passar por todo esse calvário dos últimos dias, nem quero muito investigar, acho melhor. Desculpe..." Não se faz necessário, Adrix, nem investigar, nem desculpar-se. O sentido foi dado e é óbvio: Revela-se uma escritora:
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