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Urso Panda em Saga Lusa
“Todos anjos são terríveis” (Rilke)
Confesso que esperava mais da sua primeira prosa publicada. Talvez por estar viciada numa literatura muito margueriteana, lispectoreana, hilsteana e por saber, a priori, que era o registro de um surto. Só pode ser bomba, pensei. Vai me destruir. Nada disso, mas me tocou. Pela leveza e por estar ela ali, Adriana Calcanhoto, íntegra, despida, doce. Li numa sentada, como se o sorvete derretesse nos dedos impondo a necessidade de chupá-lo rápido até a pele das mãos, já lambuzadas. Fomos convidados, pelo seu “relato de uma viagem”, a percorrer a turnê de Maré, seu último disco, em Portugal e, além, dividir o mesmo quarto com ela. Um presente por deixar-nos passear pelas terras lusas e conhecê-la na intimidade. .
“Poderia ter enlouquecido em qualquer outro ponto da turnê, mas justamente em Portugal? O país que tem como seu dia, o “Dia Um” como eles gostam de chamar, o dia de um poeta? O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, sim, mas é o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas no mundo todo, não é lindo isso? Dez de junho. E somente porque não sabe-se ao certo a data de nascimento de Camões, então ficou-se com a da morte. É fascinante, comovente. O dia de Portugal não é o dia de um general, de um estrategista, de um descobridor, de um desbravador, de um rei, um golpista, um conquistador, um ditador autoritário, um lunático, nem mesmo de um metalúrgico. É o dia de um poeta. Que outro país é assim? É muito linda uma nação camonóloga.”
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Sua escrita é simples, como ela mesma é. Mas mora nela, na simplicidade, e portanto em Adriana, a beleza. Nada sobra nela. Nunca desperdiça palavra, é quase enigmática, mas quando fala, bum. Pouco performática, quase seca. Pouco movimenta o corpo no palco (isso é uma provocação, Adriana!). É voz. É verbo. Quando canta, quando fala, quando escreve. Aos poucos, ao longo de uma vida, se constrói como palavra, apenas, para o mundo (apenas?).
Das canções, percorrendo seus discos, é possível decifrá-la poeta e política. Expressa as mazelas do mundo: "insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como cachorros dentro dágua no escuro do cinema"; Encerra delicadeza quando se faz Partimpim para interpretar Chico, Edu, Arnaldo Antunes e nos encolhe crianças, com pereba, marca de bexiga, lombriga, ameba, berruga, piolho, unha encardida, dente com comida, casca de ferida, calcinha um pouco velha; Constrói metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros, em parcerias com Waly Salomão e Antonio Cícero: "Passe pela lapa, pelos arco-íris dos seus arcos mais explícitos pelo claro-escuro, pelo som impuro, obscuros becos, claros dígitos"; Fala de amor de um jeito que cabe em qualquer amor: "Entre por essa porta agora e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida"; mas é despretenciosa: "Minha música quer estar além do gosto não quer ter rosto, não quer ser cultura minha música quer ser de categoria nenhuma minha música quer só ser música".
Ela entra em Maré como um molusco vermelho colorindo o mar. Vejo-a sentar-se na cadeira como uma Iemanjá imponente, tendo-nos todos, seres marítimos menos importantes na cadeia das espécies, hipnotizados. A voz, agora, só cabe à deusa. Canta Esquadros e eu navego nessas águas ("meu amor, cadê você, eu acordei, não tem ninguém ao lado")
Adriana está, no show, com violões e cello, Bruno Medina nos teclados, Domenico Lancellotti e Marcelo Costa na percursão e Alberto Continentino na guitarra. O arranjo é harmonioso e ousado. Ao final, ela canta Guilherme Arantes. Uma música da minha infância. Vim a saber, no livro, o sentido dela, ali. Canta o mistério da lucidez na madrugada. “Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto à meia-noite, á meia-luz, sonhando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Se despede como um urso panda em um azul aveludado. Se transforma num mar revolto em cinza. "Não, não temos certeza se estaremos de volta às três, nem se haverá baleias e nem mesmo se voltaremos, se é que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos certeza de nada".
Mas e o surto, Adriana? Você não nos diz o sentido do surto, o sentido de tudo... "Não vou dizer que não mereço, não sei dizer ao certo por que é que tive que passar por todo esse calvário dos últimos dias, nem quero muito investigar, acho melhor. Desculpe..." Não se faz necessário, Adrix, nem investigar, nem desculpar-se. O sentido foi dado e é óbvio: Revela-se uma escritora: