30/07/2011

TEATRO. "Congresso Internacional do Medo". GRUPO ESPANCA


Uma colagem a partir de pequenos fragmentos retidos do visto, do sentido, do apreendido.














 foto colhida em: www.espanca.com



os sinos tocam. um clarão acende o power point. no source. quatro pessoas compõem uma mesa. pássaros são projetados na parede e o vôo daquele que segue à frente do bando faz expandir a tela azul. na tela, os conferencistas são apresentados. Tusgavo Tapbista, estudioso de animais e especialista em peixes. José, da Ilha do Cedro. Relune Divarg, estudiosa de histórias infantis e Trurak, representante do povo Ayrita. os palestrantes permanecem em silêncio observando a platéia, atentos a cada ruído. uma mulher aparece na lateral direita, numa cadeira de rodas, e se posiciona ao lado da grande mesa rústica de madeira. um casal rodopia seus corpos ao redor do pequenino tablado sobre o qual estão os convidados. todos os personagens vestem branco. Tusgavo fala num tipo de dialeto “quase” espanhol e a mulher cadeirante o traduz. "não há ninguém da organização do evento aqui?" José fala numa língua poética, imbricada de figuras de linguagem. "o sentido estava míope". José, da Ilha do Cedro, um branco meio índio, apresenta a sua irmã de sangue, Payá. e Relune anuncia a sua tese: "o sentimento do medo nos contos de fadas infantis". "o maior medo da humanidade é a morte". gráficos são projetados ao fundo, sem qualquer sentido. enquanto os palestrantes dão as costas à platéia e conversam sobre o amontoado de dados, a tradutora desabafa, remetendo-se ao público. "este é o último congresso em que participo. é preciso descansar desse trabalho com as palavras = elas cansam. horas e horas tentando conceituar a vida". num ímpeto Relune se vira aos ouvintes e a tradutora a torna legível. "e foram felizes para sempre". Tusgavo, irritado, questiona à especialista, que fala uma mistura de árabe com francês e usa chador, o que ela quer dizer com "sempre" e qual é o contrário da vida? alguém grita, dentre a multidão que ao seminário assiste. a morte! "a morte não é o contrario da vida, mas um fenômeno essencial dela. para cada ser que morre, outro nasce". José mata um mosquito que o irrita. "desculpe com o fim do zum zum zum". "enquanto você falava em final feliz, um ser acaba de morrer entre nós". nem ele fala espanhol, nem ela fala francês, mas soa como, alguém conclui baixinho na platéia. Tayá canta. "tá fazendo o enterro do mosquito morto". a mulçumana chora. "não quer retirar o seu corpo, fazer respirar os pulmões"? os dançarinos dançam incessantes. Tusgavo apresenta os peixes que estão dispostos dentro de um aquário redondo sobre a mesa. são orientais. enquanto ele defende a sua tese e a mulher traduz, mais se ouve uma música ao fundo, como se o dito ali fosse o menos importante. num segundo a música cessa. "resumindo, o contrário da vida não é a morte. no fundo somos como os peixes imersos num aquário, com mais sorte, imersos num oceano". a mulher mulçumana passa mal, sente dores, geme, chora. todos tentam acolher a sua dor. a dor passa. Trurak, o índio, pede silêncio. "vocês estão ouvindo o coração? pega no seu coração", ordena ao público. Tusgavo pega no seu, incrédulo, com olhar de descaso. "nós não deve fazer uma ação sem consciência. quando coloca mão na água, tem que colocar a mão na água. mensagem do corpo para o espírito. senão o tempo distrai nós. se nós estamos vivendo o tempo nós não podemos pensar na água. o tempo varou o corpo. e corremos atrás do tempo como quem quer varar a própria sombra". Payá apresenta os desenhos que traz no corpo. "esse aqui é a lua fazendo o sol dormir. e esse aqui, vermelho, é a hidrelétrica jogando água na aldeia". "se o conhecimento não descança, ele cansa. tira essa musica aí! nós não podemos fazer do nosso conhecimento uma aldeia triste". a mulçumana passa mal de novo. descobrem-na grávida. "uma criança vai nascer nesse congresso". "e não tem ninguém da organização aqui". o especialista em peixes, aterrorizado, assume o parto. a mulher se deita sobre a mesa da conferência. o índio se concentra num pequeno ritual de oração. "agora é a hora que a lua coloca o sol no colo. quanta simplicidade". a mulçumana geme. a criança parece não querer nascer. perde muito sangue. de um grande filtro de barro, ao lado da mesa, um líquido vermelho jorra pelo chão, mal presságio. a criança nasce. os personagens brindam e oferendam, cada um o que trouxe consigo. o poeta, um pequeno globo terrestre. "este é o nosso aquário para a pessoa que é sua". Tusgavo tira do bolso uma pequena máquina fotográfica digital e registra o momento, como se, para existir, um momento precisasse ser fotografado. depois ele conta uma história infantil, que seduz a todos. nessa hora a tradutora integra o grupo e já não traduz a narrativa, pois o lobo mal parece agregar uma linguagem universal. os dançarinos se lambuzam no sangue, batizando suas vestes. tingem suas roupas, seus corpos e bailam um tango. "só a vida cura o nosso mundo. agora entendo porque a organização nos chamou". a tradutora começa a passar mal. volta a traduzir enquanto finge não se importar com o que lhe sucede. "o que a senhora está ouvindo aí dentro?" "eu nunca tive medo do conhecimento, a mecânica do movimento. mas a morte, eu nunca estudei a morte, a morte mesmo eu não sei". enquanto ela morre, balé de sangue. no retroprojetor, uma mensagem. "eu estou dentro de mim de costas para a minha face. que temor". escuridão. flashes de luzes. som de oboé. na mesa do congresso, nascimento e morte estendidos. o poeta pega o aquário e o suspende acima do corpo estendido da mulher morta. "esses dois seres é que conseguem perceber o quanto é minúsculo o nosso universo". sons de água, de maré, de pássaros. Tayá se junta ao balé. balé de sangue. o que não se traduz, breu. hipóteses.



ps. os textos entre " são originais do espetáculo.
 

11/07/2011

LITERATURA. O epos de Velimir Khlébnikov



       Resolve matar o dia e já a tarde se esvai quando busca um livro na estante. Chovia a cântaros. Pega Admirável Mundo Novo, mas como se já gasta toda a sanidade nas últimas semanas, as primeiras linhas bastam. Lembra-se da resposta de um amigo escritor, quando provocado por ela, numa mensagem via celular.
“Estou num sebo. Qual livro comprar?”
“Os russos, minha cara. Sempre os russos!”
Acabou não comprando nada, mas agora, em busca de algo na prateleira, a frase do amigo vem arrebatadora. Resolve considerar, apesar de duvidar ter algo além dos livros já lidos de Dostoievski, Nabokov, Gorki e Maiakovski. Aproxima os olhos feridos de astigmatismo na estante e entorta a cabeça para iniciar a busca. Um nome com K chama a atenção. Se há um K no nome, há de ser russo. Lelê assina Kouklanakis. Uma pessoa com três K’s só há de ter um destino na vida, ser poeta.
Um livro fininho, verde. Comprado, há de ter, na terceira ou quarta terra a partir do sol? Velimir Khlébnikov 1. Nunca leu este autor e sequer sabe porque o tem na estante. Wikipédia nele. “Foi um erudito e poeta vanguardista russo, cronologicamente, o primeiro vanguardista na poesia russa”. Para Maiakóvski, "nós o considerávamos e continuamos a considerá-lo como um dos nossos mestres em poesia e como o magnífico e honestíssimo paladino de nossa luta poética." Se Maiakóvski falou, tá falado.
Abre numa página qualquer e o texto lhe suga feito um portal: “Ka era meu amigo; eu o amei por seu gênio de pássaro, despreocupação, espírito. Ele era cômodo como uma capa impermeável. Ele ensinava que há palavras, com as quais é possível ver, palavras-olhos e palavras-mãos, com as quais é possível fazer.” O título do texto: “Traduzir Ka”. Khlébnikov é o deus de Ka. 
     Para os estudiosos do autor, K significa a ausência de movimento, o repouso de uma rede de pontos. Porém seguida da vogal a, primeiro signo do alfabeto, sinaliza para a mobilidade e expressa o ser, a pessoa, a individualidade. Ainda, "uma projeção viva e colorida da figura humana, um duplo que reproduzia em seus mínimos detalhes a imagem inteira do objeto ou do indivíduo ao qual ele pertencia."2
        A partir de agora, é possível prever guerras terríveis e seculares se formando. Mas enquanto uns guerreiam por espaço, há outros duelos maiores, incrustados de afetos. Ainda de pé em frente à estante e como Tuareg de frente ao oásis, devora tudo.
     Havia se prometido, nesta mesma manhã e já na noite de ontem, depois de se emocionar numa mostra de cinema latina no Umberto Mauro, cessar suas buscas. Neste tempo e espaço aonde agora se situa, o livro, quem o terá posto na estante, caro leitor, para feri-la de morte? Por parceiro do acaso, a vontade do mundo. “Ka era vivo, gracioso, moreno, terno; os grandes olhos tuberculosos de um deus bizantino e as sobrancelhas, como que feitas apenas uns pontos apertados, ele os tinha no rosto de egípcio”.
Eis que essa publicação lhe cai nas mãos. E um livro que remete, no momento em que se despeja nos dedos, a algo de intenso significado com o real imediato e afetivo, é como um mantra prestes a ser proferido. O comprou, sem saber, para o dia de hoje. Mais. Talvez ele tenha sido escrito para que fosse lido no dia de hoje. “Ka vai de sonho em sonho, atravessa o tempo e alcança os bronzes (os bronzes do tempo). Aconchega-se comodamente nos séculos, como numa cadeira de balanço.”
Nessa brincadeira era ele o inconsciente, a conduzir o corpo num barco em mares doces nunca dantes navegados, águas do norte, turvas mas reconhecidas, onde a razão não habita, só o jorro.  Tinha febre, sua saúde inspirava cuidados, denúncia doída contra o destino, mas sabia entressorrir e sem pudor se despiu. Tinha pressa, mas deixou-se permanecer até mais tarde. Em vão, rol de mágoas terrenas. “E cantava Eddas, a triste canção das margens marinhas.”
Ela já experimentava os tormentos de quando tudo era sem nuvem e de quando não se sabia em carne. Ka não suspeitava nela um ser vivo, mas uma concha fechada. Abra-te, disse, e ela se abriu. E nunca mais se fechou, aberta restou para o tempo – o que fazer com a consciência sobre o infinito?  Ah, é ele, os olhos de abismo.
“Foi ordenado a Ka que voltasse
e assumisse a guarda.
Ka bateu continência,
tocou a viseira
e desapareceu ,
cinzento-alado.”



1.  Khlébnikov, Velimir. Ka. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Editora Perspectiva. 1977
2. A tradutora.

24/04/2010

CINEMA . O Renascimento. O cinema em Kobayashi


É difícil permanecer em O Renascimento. Não fossem os primeiros minutos, e os últimos, poder-se-ia reduzi-lo friamente a uma repetição entediante das mesmas sequências, o que levou, na seção da mostra que participei, metade do público a deixar a sala do cinema antes que os créditos finais aparecessem na tela.

Junichi, que já havia perdido a mulher para o câncer, tem bom trabalho em jornal e vive em bairro de classe média alta em Tóquio, tem a única filha assassinada pela filha de Noriko, que é colega daquela na escola e vive em periferia. A mãe da menina assassina e o pai da menina assassinada, numa coincidência que só virão a saber mais tarde, mudarão para a mesma cidade buscando, numa rotina de trabalho mecânico, ele como metalúrgico e ela como cozinheira, não refletir a desgraça que os acometeu. Somos situados neste enredo em poucas sequências e logo inseridos na nova rotina dos personagens.

Em três quartos do filme nossos olhos são colocados diante de cenas circulares. Junichi trabalha durante o dia e à noite, ao chegar no albergue onde mora, toma banho e vai jantar na cozinha coletiva onde Noriko prepara as refeições. Presenciamos Junichi, em suas ceias, durante o filme, comer cru uns trinta ovos. Todos de uma vez, não. As sequências dos dias de trabalho e das noites de jantar se repetem devagar, fazendo-nos sentir, por tantas vezes quanto o personagem come, o ovo tomar nossa boca, percorrer a língua em busca do paladar e descer escorregadio, invadindo, gosmento, o nosso corpo. Engolimos, cúmplices, a sua rotina, sentados do outro lado da mesa, ouvindo a trituração da comida que ainda resta.

Noriko sai do Albergue repetidamente para comprar alimento industrializado – sanduíche gelado e suco de caixinha. Nunca sabemos se é dia ou noite porque o céu está sempre num tom de cinza morto. A mesma loja, a mesma rua, a mesma máquina de refrigerante com a marca da Coca-cola, em vermelho, em contraste ao cenário nublado. Ela arrasta o corpo, pela rua, torto, encolhido, inclinado, moribundo. Poucas vezes temos os olhos de Noriko, sempre escondidos pela cabeça e cabelos pendidos. De volta ao albergue, come sem gosto, noite após noite, dorme sem gosto e nas madrugadas tem o corpo desperto, tomado por insônia..

Apesar de vermos suas estórias transcorrerem nos mesmos ambientes, eles só se cruzam quando já nós nos perdemos. Quando encontramo-nos quase sós na sala de cinema (muitos preferiram não [se] ver - olho para trás e quase peço ao casal para permanecer comigo até o fim), desmascarados em nossa própria espiral de trabalho e mastigação, eles se vêm de frente um para o outro.

16/11/2008

LITERATURA - Saga Lusa. Relato de uma viagem

Primeira publicação em prosa de Adriana Calcanhoto
http://www.adrianacalcanhotto.com.br/mare

Urso Panda em Saga Lusa

“Todos anjos são terríveis” (Rilke)

Confesso que esperava mais da sua primeira prosa publicada. Talvez por estar viciada numa literatura muito margueriteana, lispectoreana, hilsteana e por saber, a priori, que era o registro de um surto. Só pode ser bomba, pensei. Vai me destruir. Nada disso, mas me tocou. Pela leveza e por estar ela ali, Adriana Calcanhoto, íntegra, despida, doce. Li numa sentada, como se o sorvete derretesse nos dedos impondo a necessidade de chupá-lo rápido até a pele das mãos, já lambuzadas. Fomos convidados, pelo seu “relato de uma viagem”, a percorrer a turnê de Maré, seu último disco, em Portugal e, além, dividir o mesmo quarto com ela. Um presente por deixar-nos passear pelas terras lusas e conhecê-la na intimidade. .

“Poderia ter enlouquecido em qualquer outro ponto da turnê, mas justamente em Portugal? O país que tem como seu dia, o “Dia Um” como eles gostam de chamar, o dia de um poeta? O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, sim, mas é o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas no mundo todo, não é lindo isso? Dez de junho. E somente porque não sabe-se ao certo a data de nascimento de Camões, então ficou-se com a da morte. É fascinante, comovente. O dia de Portugal não é o dia de um general, de um estrategista, de um descobridor, de um desbravador, de um rei, um golpista, um conquistador, um ditador autoritário, um lunático, nem mesmo de um metalúrgico. É o dia de um poeta. Que outro país é assim? É muito linda uma nação camonóloga.”
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Sua escrita é simples, como ela mesma é. Mas mora nela, na simplicidade, e portanto em Adriana, a beleza. Nada sobra nela. Nunca desperdiça palavra, é quase enigmática, mas quando fala, bum. Pouco performática, quase seca. Pouco movimenta o corpo no palco (isso é uma provocação, Adriana!). É voz. É verbo. Quando canta, quando fala, quando escreve. Aos poucos, ao longo de uma vida, se constrói como palavra, apenas, para o mundo (apenas?).

Das canções, percorrendo seus discos, é possível decifrá-la poeta e política. Expressa as mazelas do mundo: "insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como cachorros dentro dágua no escuro do cinema"; Encerra delicadeza quando se faz Partimpim para interpretar Chico, Edu, Arnaldo Antunes e nos encolhe crianças, com pereba, marca de bexiga, lombriga, ameba, berruga, piolho, unha encardida, dente com comida, casca de ferida, calcinha um pouco velha; Constrói metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros, em parcerias com Waly Salomão e Antonio Cícero: "Passe pela lapa, pelos arco-íris dos seus arcos mais explícitos pelo claro-escuro, pelo som impuro, obscuros becos, claros dígitos"; Fala de amor de um jeito que cabe em qualquer amor: "Entre por essa porta agora e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida"; mas é despretenciosa: "Minha música quer estar além do gosto não quer ter rosto, não quer ser cultura minha música quer ser de categoria nenhuma minha música quer só ser música".

Ela entra em Maré como um molusco vermelho colorindo o mar. Vejo-a sentar-se na cadeira como uma Iemanjá imponente, tendo-nos todos, seres marítimos menos importantes na cadeia das espécies, hipnotizados. A voz, agora, só cabe à deusa. Canta Esquadros e eu navego nessas águas ("meu amor, cadê você, eu acordei, não tem ninguém ao lado")

Adriana está, no show, com violões e cello, Bruno Medina nos teclados, Domenico Lancellotti e Marcelo Costa na percursão e Alberto Continentino na guitarra. O arranjo é harmonioso e ousado. Ao final, ela canta Guilherme Arantes. Uma música da minha infância. Vim a saber, no livro, o sentido dela, ali. Canta o mistério da lucidez na madrugada. “Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto à meia-noite, á meia-luz, sonhando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Se despede como um urso panda em um azul aveludado. Se transforma num mar revolto em cinza. "Não, não temos certeza se estaremos de volta às três, nem se haverá baleias e nem mesmo se voltaremos, se é que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos certeza de nada".

Mas e o surto, Adriana? Você não nos diz o sentido do surto, o sentido de tudo... "Não vou dizer que não mereço, não sei dizer ao certo por que é que tive que passar por todo esse calvário dos últimos dias, nem quero muito investigar, acho melhor. Desculpe..." Não se faz necessário, Adrix, nem investigar, nem desculpar-se. O sentido foi dado e é óbvio: Revela-se uma escritora:

“Bong é uma gata que caiu de pára-quedas na minha vida, foi abandonada na rua e veio parar na minha mão, por acaso, destino, fado. Em seguida me apaixonei, louca, perdidamente por ela, que é uma graça. Caí de amores por Bong depois de ter ficado completamente arrasada com a morte de Lig Lig Lé. Acontece que Ming Ling Lé, a gata mais velha, não se conforma, não aceita a presença de Bong e, com isso, está deprimida, estressada, não come. Então, exatamente enquanto escrevo estas frases, Isabel está passando lá em casa para levar Bong embora, adotá-la e ficar com ela. Pra sempre, ô meu deus, como dói.”
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Cada escritor que nasce, salva um afogado!
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21/09/2008

TEATRO - Fala comigo como a chuva

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(Texto do dramaturgo americano Tennessee Williams, com Cynthia Paulino na direção e, junto com ela, Paolo Mandatti na Direção de Arte, Cenário e Figurino. No elenco, Samira Ávila e Luiz Arthur.)
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O silêncio é convocado. É possível percebê-lo logo, pois se apresenta ao público ainda na entrada, ao dispô-lo de forma intimista, colado ao estrado, em um tipo de arquibancada tendente a manter os corpos que assistem no mesmo nível de tensão daqueles que atuam. Ele está instaurado, ainda, no cenário cru, quase hospitalar, que destaca apenas Klimt, ao fundo, em prolongamento dos corpos compostos por tecidos só manifestos no ato do despir-se existencial dos personagens. Deixa sua marca, finalmente, na representação dos atores-instrumentos – é possível transcendê-los e ir se abrigar no não-lugar ao qual a obra nos convoca, o não-lugar poético-literário e, sobretudo filosófico, necessário ao arrebatamento.

A circularidade disposta na encenação contrapõe o que ainda ontem, antes de seguir ao Galpão Cine Horto, eu lia no texto O teatro, em A vida Material, de Marguerite Duras, para quem a interpretação diminui o texto, nada lhe dá, é o seu oposto, lhe tira presença. Em Fala comigo como a chuva o texto está materializado em cada cena e a sua interpretação, longe de roubar-lhe o ato, lhe imprime, lhe desvenda, lhe dá vida.

Algo no texto me remete à filosofia de Wittgenstein e à literatura de Lispector. A personagem de Tenesse Williams, convocada ao diálogo, traduz, ao longo do espetáculo, o lugar da Palavra. Ao descartar a elaboração metódica de uma linguagem que em tese traduziria seus sentimentos e evocar qualquer frase aberta de um livro ao acaso, dando-lhe a interpretação necessária à transposição da dor, impõe, à palavra, o lugar de caminho, percurso, instrumento, apenas, para deixar vazar, escapulir, dispor, o que não está apenas no dizer, mas na integralidade do instante do dito.

Se o texto traz esta dimensão, a construção da sua representação contribui para este entendimento. A repetição bem empregada reflete, como mantra, o que há de sensação para além da palavra. Esta repetição, como tautologia, se fixa no ambiente e sugere o calar onde não cabe falar. A dança dos corpos, a dizer como a chuva, existir uma linguagem para além do signo-letra, batiza com água a verdade dos personagens, fazendo-nos transparentes diante desta busca humana por um outro que nunca chega.

Esta procura frustrada, desmascarada pelo personagem feminino naquilo que seria fácil caracterizar como surto, delírio, loucura, transporta-nos para o insuficiente, incomensurável, inarmonioso, inextirpável, inarrável, inassíduo, inane, da dimensão humana.

A madrugada se estende em desatino, como espelho capaz de fazer ver o quanto há de solidão nesta dimensão, impossível de ser decomposta pela presença de um outro. Este vazio é limitado à incapacidade deste outro, ao lado, supri-la ou é maior, do tamanho do existir? Há casa de praia repleta de poetas mortos capaz de preencher o quanto há de vazio-e-busca no ato de ser?

A música, ali, ocupa com maestria o seu lugar de tradutor do tempo. Ela é o tempo, que ora nos arrasta à complexidade das relações instauradas no que já se construiu e destruiu, insinuando uma necessária ruptura em prol de uma vida que se quer alheia à dor e ora nos arranha na impressão de um instante que, apesar da dor, ainda nos suga e conforta, porque repleto e molhado de amor.

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